segunda-feira, 16 de abril de 2007

Um poema para começar bem...

"Eu não posso salvar ninguém...
Esse complexo de heroína fracassada me consome!
Preciso salvar meu filho - o amor mais concreto que tive até hoje -
e lhe mostrar um mundo diferente, um lugar aonde ir. (...)
O menino e o quintal cresceram dentro de mim
durante todo esse tempo de ausência e de espera inútil.
Eram eles meus demônios invisíveis.(...)
O quintal inatingível, no escuro de um tempo absurdo,
virou uma obsessão. No caleidoscópio de minha alma,
o que havia de mais pungente era um homem e um sonho.(...)
A maternidade ocorreu como um assalto.
Varreu com ímpeto qualquer abstração que fiz acerca do amor.
Foi uma vertigem louca, mais poderosa que meu tombo na escada.
Se na primeira eu me descobri sozinha,
com o ventre pleno, a solidão rangeu os dentes.
Porque era eu e somente eu para nutrir, manter, fazer crescer,
materializar uma criatura dentro de mim.
Uma criatura que eu não via!
A consciência prenhe assombrou meus dias.
Estava à luz da verdade mais incômoda para uma mulher:
existiam dois corações pulsando no meu corpo...
'Se existe coração, existe alma', minha mãe dizia.
Foi assim que me vi, dividida e multiplicada,
ao mesmo tempo, mais sozinha do que nunca,
porque não estava apenas só, mas desesperada.
Algo que era invisível em mim, tornou-se carne de repente.
E eu não sabia o que fazer
com aquela minha nova natureza encarnada.
Aquele fantasma que resolveu se concretizar.
Antes eu podia escolher desistir do mundo,
e eu seria apenas uma suicida.
Mas, dona de dois corações,
desistir da vida implicava também cometer um assassinato.
Não, eu nunca faria...(...)
Não! Eu não deixaria ninguém ficar esperando triste do outro lado,
como eu esperei, iludida de conhecer, um dia, um mundo diferente.
Criei um hábito engraçado de me enxergar como a um siamês:
com dois corpos, duas naturezas, dois ventres, duas faces,
dois tempos, dois sentimentos, duas intenções, duas direções,
uma de mãe, outra de mulher.
Todas duas harmonicamente dispostas num só corpo.
Eu que sempre julguei ser única... Não era.
Sou duas em uma. Sempre fui.
Para esta certeza não existe mais reparo.(...)
Minhas duas naturezas sorriram cúmplices da descoberta:
sou mãe, presa a uma vontade que não é minha,
a um corpo que não é meu.
E sou mulher, fêmea livre no cio,
presa apenas ao primitivismo mais doce da carne:
a vontade de transgredir.
Abrigo de crianças, mas também de homens.
Do que é inocente e virgem,
mas também do que é obsceno e experiente.
Do que é novo e diferente, mas também do vivido e conhecido.
Do começo e do fim. Só a mulher fecha o círculo.
Eu fechei o meu."
(Agenita Ameno - Mulher ao Avesso - "A Transformação")

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